terça-feira, 9 de abril de 2013

Carreira de professor não atrai estudantes

Salários baixos, falta de estímulo e poucas oportunidades de ascensão na carreira espantam os candidatos ao magistério

Grasielle Castro - Correio Braziliense
Publicação: 08/04/2013 12:47 Atualização: 08/04/2013 13:11

Estudante de matemática, Leandro prefere fazer carreira na pesquisa  (Edilson Rodrigues)
Estudante de matemática, Leandro prefere fazer carreira na pesquisa
 
O sonho de ser professor tem sido sufocado pela realidade do mercado nas universidades brasileiras. As políticas de valorização dos docentes não avançam. As empresas, por sua vez, disputam especialistas com salários estimulantes e boas condições de trabalho. Quem entra no ensino superior acalentando o plano de dar aulas, acaba desistindo. Em números absolutos, os que mais abandonam o caminho do magistério são os candidatos a professor de português ou matemática. Só em 2011, foram quase 40 mil desistências, segundo dados do último Censo do Ensino Superior. O curso de física é o que tem o maior percentual de alunos desvinculados em comparação com o número de matrículas: 31%.

Todas as disciplinas citadas são obrigatórias nos currículos das escolas brasileiras. Mesmo assim, o desempenho dos estudantes nessas cadeiras deixa muito a desejar, segundo pesquisas oficiais de avaliação, como a Prova Brasil. Especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que, para mudar esse quadro, são necessárias políticas capazes de aliar a educação ao crescimento do país.

O alto índice de desistência, segundo a diretora executiva do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, mostra que, cada vez mais, os estudantes optam pelo bacharelado em vez da licenciatura.Na opinião dela, o principal chamariz é a possibilidade de o profissional conseguir um emprego mais bem remunerado. “No caso das ciências exatas, por exemplo, como há poucos especialistas na área e uma demanda maior por profissionais, como engenheiros e matemáticos, eles acabam trocando de ramo. Em uma economia aquecida, com pleno emprego, muitas empresas absorvem esses profissionais”, avalia.

A trajetória de Leandro Chiarini, 20 anos, estudante do 5º semestre de matemática da Universidade de Brasília (UnB) reflete essa tese. Ele iniciou a graduação com a intenção de fazer duplo curso (bacharelado e licenciatura), mas, ao longo do curso, descobriu que o campo da matemática era bem mais amplo.“São opções diferentes. É bom ensinar, mas vi que gosto mais de aprender”, destaca. “A quantidade de coisas para fazer na área é grande, e há espaço para quem quer seguir a carreira na pesquisa”, completa. Apesar de considerar a área fascinante, ele destaca que é fácil perceber que muita gente desiste com facilidade do curso. “Quando entrei na UnB, éramos uns 40 calouros. No segundo semestre, só oito permaneceram”, lamenta.

O estudante do 9º semestre do curso de físicaDiegoVeloso, de 24 anos, nem chegou a cogitar a licenciatura. “Optei pelo bacharelado para poderme dedicar com exclusividade à pesquisa, os profissionais da educação básica não são valorizados, principalmente na rede pública”, justifica.

O coordenador do curso de matemática da UnB, Guy Grebot, ressalta que a desistência é um caso histórico, mas que tem se intensificado nos últimos anos. “A remuneração é umdos fatores (da desistência). Tem profissional que ainda leva a carreira como um quebra-galho, e não é. As pessoas se esquecem de reconhecer o magistério. Tem cargos em que basta o ensino médio para que o funcionário ganhe uma fortuna”, desabafa.

O retrato do desestímulo para seguir carreira no magistério também aparece em uma pesquisa feita em 2010 pela Universidade de São Paulo (USP) dentro da própria instituição, a maior do país. O estudo apontou que dar aulas é apenas a quarta razão para escolha da licenciatura.

O diretor jurídico do Sindicato dos Professores do DistritoFederal (Sinpro-DF), Washignton Dourado, argumenta que “a maioria faz outra opção, porque o prestígio de ser professor está caindo”. “Há uma falta crônica desses profissionais, principalmente de (ciências) exatas. A gente percebe que, no momento em que o jovem escolhe a faculdade que ele vai cursar, há uma demanda maior por cursos de áreas saturadas, como direito, em detrimento da licenciatura”, diz Dourado.

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Luiz Cláudio, assegura que o Ministério da Educação tem acompanhado o problema, mas destaca que o quadro está mudando. Segundo ele, a criação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) tem dados bons resultados, assim como o Exame Nacional do Ensino Médio e o fortalecimento do programa de assistência estudantil. “O Pibid tem feito com que o estudante se motive, fique no curso. E, com o Enem, a concorrência para os cursos de formação de professor aumentou e tem atraído estudantes com notas mais altas, que permanecem no curso”. As mudanças, segundo ele, devem se refletir nos próximos censos do ensino superior.

A política do piso nacional para os professores e as ações do Plano Nacional de Educação, que tramitam no Senado Federal, também são apontados pelo órgão como políticas eficientes. “Boa escola precisa de bons professores e precisamos tê-los para repor nossa demanda”, resume.

108 razões para comemorar

Alunos do Centro de Ensino Médio Setor Oeste dão exemplo de dedicação e garantem vagas na Universidade de Brasília.
         
Fonte: Eu, estudante

Publicação: 05/04/2013 10:00 Atualização: 05/04/2013 15:38

A maioria dos estudantes participou do PAS e do vestibular pelo sistema universal: atividades extracurriculares e treino para a prova da UnB foram o diferencial (Iano Andrade)



A maioria dos estudantes participou do PAS e do vestibular pelo sistema universal: atividades extracurriculares e treino para a prova da UnB foram o diferencial
A primeira visão que se tem ao entrar no Centro de Ensino Médio Setor Oeste (Cemso), na Asa Sul, é a lista dos ex-alunos aprovados para o 1º semestre de 2013 da Universidade de Brasília (UnB). O colégio garantiu a aprovação de108 estudantes na instituição federal, entre o Programa de Avaliação Seriada (PAS), triênio de 2010/2012, e o último vestibular. Boa parte deles concorreu pelo sistema universal porque não cumpria todos os critérios exigidos para disputar pelo regime de cotas reservadas aos alunos de escolas públicas.

O alto índice de aprovação do Cemso reforça a fama da instituição de ser uma das melhores do DF, e a põe em pé de igualdade com os índices de alguns colégios particulares da cidade. Neste ano, a taxa geral de aprovação na UnB foi de 35%, num universo de cerca de 300 alunos do 3º ano do ensino médio. “Quando uma escola pública consegue um resultado assim, é motivo de comemoração”, conta, satisfeito, o diretor, Augusto Neto, professor da unidade desde 1998. Apesar de ser uma das escolas mais disputadas pelos alunos que ingressam no sistema de ensino público de Brasília, o Cemso passou por muitas dificuldades. Em 2011, o número de calouros na UnB não passou de 50.

Novo projeto
Para Augusto, o mérito conquistado em 2013 provém de um projeto que tenta aproximar o aluno da rotina de provas da universidade. “Passamos a investir em simulados e em provas interdisciplinares. Uma das maiores dificuldades dos nossos alunos era o preenchimento da folha de respostas, por causa da falta de prática. Por isso, decidimos adotar o sistema semelhante ao usado pelo Cespe, que é corrigido eletronicamente”, explica o diretor.

Além disso, diversas atividades extracurriculares e interdisciplinares ajudam a integrar a comunidade escolar. No projeto Teclarte, por exemplo, os estudantes desenvolvem vídeos sobre assuntos apresentados nas aulas de artes, literatura, filosofia e sociologia. Há ainda um sarau poético, uma feira de artes e ciências e os intervalos culturais, que ajudam a revelar talentos entre os jovens. Nos fins de semana, os professores são voluntários em aulas de revisão para motivar ainda mais os alunos.

Para a professora Ana Maria Gusmão, o número de aprovados poderia ser ainda maior. Ana Maria diz que o potencial de muitos é desperdiçado pela falta de investimentos nas escolas públicas do DF. “Não temos muito apoio de ninguém, e o trabalho que fazemos aqui é na garra”, revela. “A Secretaria de Educação não valoriza as experiências positivas nas escolas. Não recebemos sequer um parabéns”, critica Augusto. Apesar de uma recente e pequena reforma, que deu nova pintura às salas de aula, a escola ainda enfrenta dificuldades, como a falta de um ginásio de esportes coberto, carteiras e quadros sucateados, além de goteiras no teto. O laboratório de informática, completamente equipado desde 2007, nunca funcionou porque não há professor.

Calouros
Apesar da dedicação aos estudos e das boas notas nas provas da escola, Carla Larissa Cunha, 18 anos, nem imaginava que poderia ser aprovada na UnB. “Fiz o PAS para biotecnologia, mas achei que não seria a minha vez. Então, prestei também o vestibular, mas também sem muita confiança”, conta. A jovem, que sempre estudou em colégio público, garantiu a vaga nos dois exames. “A felicidade foi enorme”, lembra. Nos planos da garota, estão concorrer a uma bolsa de intercâmbio, estagiar e aproveitar ao máximo a experiência acadêmica.

Outro estudante que demorou a acreditar na própria aprovação foi Lucas da Costa, 17 anos, que conquistou uma vaga em direito na 4ª chamada do PAS. “Tinha perdido todas as esperanças, e já estava matriculado em um cursinho”, conta. Os momentos que passou no Cemso, onde cursou o ensino médio, agora são uma boa lembrança. “Vou sentir saudade, mas agora é tudo novidade. As aulas começaram esta semana, e eu estou completamente focado lá.” Ele não vê diferença em relação aos colegas de escolas particulares que também cursam direito. “Lá dentro, somos todos iguais.”